quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Espera

 Cheguei. O caminho passado, pensado. Pesado. Ônibus cheio, metrô vazio. Mente cheia e vazia. O encontro se aproximava. Agora era só esperar. Encostei-me em um murinho de azulejo branco. Frio. Meu casaco de nylon preto me esquentava, mas não me protegia. Pessoas passando, rindo, falando ao telefone. E eu à espera. Percebi que não era o único que esperava. Um senhor encostado na parede do outro lado da estação também esperava. Tinha cara de quem esperava. Expressões de uma vida inteira carregada à força. Talvez tenha esperado a vida inteira. Esperançoso e cansado. Do outro lado, perto da saída, uma mulher com roupas sociais bem passadas também esperava. Seu marido, filho, seu chefe. Esperava alguém ou alguma coisa que a tirasse dali. Talvez um aumento, depois que seu chefe chegasse e a levasse a um motel barato. E as horas não andavam. Os minutos se rastejavam pela estação cheia. E vazia. Enquanto eu só queria que ele estivesse vindo. De verdade.
De um lado pro outro, de dentro pra fora, as pessoas se movimentavam como sempre fazem. Duas travestis que passavam por mim, cochicharam algo. Sei que é sobre mim. A que tinha cabelos loiros quase brancos olhou para trás em minha direção e continuou andando. Confirmação de que era sobre mim que falavam.
Olhei pra frente, o senhor já havia ido. Por onde, ninguém sabe. Pra onde, tampouco. Mas se foi.
Comecei a perceber os seguranças e funcionários da estação à minha volta. Um no portão de saída, outro em frente à catraca. Dois na bilheteria e um perto da escada rolante. Eles deviam ter certeza de que eu estava levando um lindo bolo. O que será que pensavam, além disso? Reparei olhares sobre mim. Senti-me um pouco constrangido. Mal sabiam que quem eu esperava não chegaria jamais.
Olhares, sons, trens que passavam fazendo estrondos e eu ali. Olhava para o relógio, os ponteiros mal se movimentavam. Mas comecei a achar que era hora de ir. Encarar a realidade e seguir em frente. Afinal, todos já me aguardavam à mesa grande do restaurante. Todos sorridentes, extrovertidos, com grana. Conversaríamos sobre teatro, sobre música, sobre viagens. E eu, perdia meu tempo – que não passou – esperando quem não viria mais.

P.P.

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