domingo, 27 de novembro de 2011

Novo velho

E então, hoje o passado vem visitar o presente, confundindo o futuro e o agora.
O que era esquecido - ou quase - surge como se nunca tivesse deixado de existir.
Um feixe de luz atravessa o buraco da fechadura do ontem, bate no espelho do hoje e reflete direto em direção à janela do amanhã. E persegue, consome.
Eu, você, parados diante da porta de ferro. Encosto-me, e você vem com sua mão na minha, trazendo também o velho tato, enquanto me forço a não lembrar de sentido algum. Você dificulta, e se diverte com isso.

  - Que estranho. - digo, depois de alguns minutos em total silêncio.
  - O que?
  - Isso tudo, essa situação, esse lugar, essas pessoas. Me sinto como se estivesse olhando tudo de fora de mim. Eu e você aqui, nessa situação, só é estranho.
  - Que situação? - faz-se desentendido.
  - Você entendeu. - finalizo, causando mais alguns minutos de silêncio.

E depois de uma tarde num bar, você, cerveja, eu, coca-cola, sentimo-nos assim, estranhos. Estranhos como se nunca tivéssemos tido intimidade antes. Como se nunca tivesse me dito tudo o que pensa, tudo o que sente, e como se eu não conhecesse e soubesse exatamente quem você é - quer queira, quer não.
Me apresso a dizer que vou-me. Não vai... Pede-me para ficar, deixando de lado todo seu orgulho. Mas prefiro dizer que vou mesmo assim, sabendo o quão perigoso é ficar ao seu lado agora. No mais fundo, sei, sabemos que não vale mergulhar nas dores, amores e na cor sépia em busca de um novo velho. O velho, só pode se tornar mais velho.
Nos dirigimos ao metrô que vou pegar, mais alguns minutos de silêncio até que eu consiga encarar as catracas e ir-me. Você, respeita meu silêncio, mas insiste mais um pouco. Usa de suas últimas tentativas, mesmo que falhas.

  - Então tá. Boa noite. - digo, sem saber mais o que dizer, mas ainda sim sem coragem de ultrapassar as catracas e deixar-te mais uma vez.
  - Boa noite pra você também. - responde, cabisbaixo.

Sem muito olho no olho, sem coragem de ficar, ou de ir, apenas viro-me, passo pela catraca e sigo meu caminho, descendo as escadas sem ao menos olhar para trás.


P.P.

5 comentários:

  1. As vezes olhar para trás pode significar estar preso ao tempo. Viver e seguir em frente é uma das mais belas coisas que a vida pode oferecer, pois mesmo que quiséssemos voltar 10 segundos no tempo, seria em vão...ou seja, nossa vida só tem futuro e quem vive de passado é Museu! Embora lançar um olhar ao passado seja necessário para não errarmos no futuro...
    Parabéns pelo texto, muito criativo e original! Grande beijo do Dan!

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  2. Olha só! O Dan também se inspirando e escrevendo coisas ótimas! Brigado Dan! Beijos!

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  3. Dizer não doí, mas as vezes é o melhor que temos a fazer não e mesmo?

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  4. Muitas vezes, dizer dói sim.
    Mas, sem dúvidas, sempre é o melhor a se fazer. Necessário.

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  5. "Há corações que param no passado; e para que isto não
    aconteça com você deixo-lhe este pequeno lembrete, para que o
    seu coração, ao mover-se no futuro, encontre sempre algo no
    presente."
    Lembrei de ti quando li isso...bjos!

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